Depois de décadas de investigação e centenas de estudos, segundo explica a prestigiosa revista Nature, num artigo publicado no princípio de fevereiro de 2019, os pesquisadores estão lutando para converter descobertas pré-clínicas promissoras sobre o chá verde em benefícios significativos.

À procura de respostas claras

Uma chávena de chá revitalizante é um dos prazeres da vida, mas há já várias décadas que cada vez mais pessoas pensam que esta bebida pode ter propriedades restauradoras muito maiores. Nomeadamente, há evidências de que o chá, ou alguns de seus componentes químicos, podem proteger contra o câncer. 

A perspetiva é tentadora, mas depois de décadas de estudos e até mesmo de ensaios clínicos em pacientes com câncer, a comunidade científica ainda está longe de ter uma resposta clara.

Estudos populacionais indicam claramente que as taxas de câncer de próstata nos países asiáticos – onde o chá verde se consome em grandes quantidades – são muito inferiores às registadas nos países ocidentais.

No entanto, enquanto que nos estudos com animais os resultados são esperançosos, há poucos indicadores que permitam chegar a conclusões fundamentadas em dados sólidos quando falamos do ser humano. 

Repleto de potencial

Como já explicámos noutros artigos, as propriedades medicinais do chá verde estão principalmente ligadas a uma família de compostos conhecidos como catequinas. Sendo a mais importante o galato de epigalocatequina (EGCG), que normalmente compreende 60-65% do conteúdo de catequinas numa xícara de chá verde, e pode estar presente em concentrações até dez vezes superiores às da cafeína. 

A EGCG tem efeitos farmacológicos potentes, tanto em células cancerígenas em cultivo como em ratinhos. 

Para além de combater os radicais livres, que podem causar danos celulares graves e promover o crescimento de tumores. O EGCG causa a autodestruição das células tumorais, um processo conhecido como apoptose.

No entanto, a forma como estes diferentes mecanismos contribuem para o efeito anticancerígeno global do EGCG é difícil de determinar. Segundo uma revisão publicada em 2009, 133 de 147 estudos publicados em animais envolvendo chá ou extratos de chá, demonstraram prevenção eficaz ou inibição do crescimento de uma grande variedade de cânceres.

Infelizmente, os benefícios medicinais a nível oncológico do chá em humanos têm sido extraordinariamente difíceis de provar. A principal fraqueza dos estudos disponíveis é que eles dependem de auto-relatos, uma forma pouco fiável de avaliar o comportamento dos pacientes. 

Resultados promissores

Apesar desses desafios, vários estudos de longa duração mostraram alguns efeitos benéficos do chá verde na prevenção do câncer. Um estudo de 2016 rastreando a saúde de mais de 164.000 homens chineses entre 1990 e 2006, relacionou o consumo regular de chá verde com uma redução de 8-21% no risco de morrer de câncer. E na Holanda, um grupo de tem acompanhado os efeitos do chá e outros fatores dietéticos sobre a saúde a longo prazo de 120.000 homens e mulheres de meia-idade desde 1986, descobriu que, nos homens, à medida que o consumo de chá aumenta, a mortalidade por cancro, a mortalidade cardiovascular e a mortalidade geral diminuem, com um pico de benefício observado em três xícaras de chá por dia.

Uma vez que o chá pode ser preparado de várias formas que afetam a força e a quantidade de catequinas, o que pode alterar o seu impacto fisiológico, os investigadores clínicos trabalham frequentemente com extratos que reproduzem a composição de catequina de uma xícara forte de chá verde, e que podem ser administrados em forma de cápsula.

Em 2006, um estudo italiano sugeriu que estes extratos poderiam evitar que o crescimento pré-canceroso da próstata se tornasse canceroso. No entanto, um ensaio realizado em 2015 com os mesmos extratos, não conseguiu demonstrar um efeito estatisticamente significativo em termos de prevenção do cancro da próstata, embora a equipa tenha observado uma diminuição da formação de certas lesões pré-cancerosas.

Uma preocupação dos pesquisadores que realizam estes estudos é que, o EGCG, em doses elevadas, apresenta um risco de toxicidade hepática. Um problema que foi verificado em pessoas que tomam elevadas doses de suplementos.

Isto é problemático porque os modestos efeitos anticancerígenos em estudos até agora sugerem que a prevenção do câncer pode exigir uma dose mais elevada de EGCG do que seria entregue por uma xícara de chá. 

Para contornar estes problemas, vários grupos estão explorando estratégias inspiradas em nanotecnologia que podem usar os efeitos desta catequina de uma forma mais direcionada. 

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